Aviso: Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento médico. Consulte sempre o seu médico antes de iniciar qualquer suplementação.
Portugal tem mais de 300 dias de sol por ano. É um dos países mais ensolarados da Europa. E, ainda assim, o défice de vitamina D em Portugal afeta mais de 60% da população adulta.
Esta contradição confunde muita gente, incluindo médicos de outros países. Como é possível que um povo que vive à beira-mar, sob sol quase permanente, sofra de uma deficiência diretamente ligada à exposição solar?
A resposta existe, é documentada pela ciência portuguesa, e explica porque é que tantos portugueses andam cansados, com os ossos fracos e com o sistema imunitário comprometido, sem nunca associar esses sintomas à falta de um único nutriente.
Neste artigo explicamos o que é o défice de vitamina D, porque é tão prevalente em Portugal especificamente, que grupos estão em maior risco e o que pode fazer para corrigir a situação.
Índice
O Que é o Défice de Vitamina D e Como se Define?
A vitamina D é medida no sangue através da análise à 25-hidroxivitamina D, abreviada como 25(OH)D. Os valores são expressos em nanogramas por mililitro (ng/mL).
A classificação mais utilizada clinicamente é:
| Nível | Valor sérico |
|---|---|
| Deficiência grave | Inferior a 10 ng/mL |
| Deficiência | Entre 10 e 20 ng/mL |
| Insuficiência | Entre 20 e 30 ng/mL |
| Suficiência | Superior a 30 ng/mL |
| Toxicidade (rara) | Superior a 100 ng/mL |
Um ponto importante: existe alguma controvérsia científica sobre onde fixar o limiar da suficiência. Alguns especialistas usam 20 ng/mL como ponto de corte, outros defendem que 30 ng/mL é o mínimo para uma função fisiológica ótima. Esta diferença metodológica explica parte das variações nos números citados em diferentes estudos.
Quantos Portugueses Têm Défice de Vitamina D?
Os dados disponíveis são consistentes e preocupantes.
Um estudo publicado em 2020, que avaliou a prevalência da vitamina D na população portuguesa entre 2011 e 2013 com mais de 3.000 indivíduos, revelou que mais de 60% da população portuguesa apresenta níveis de 25(OH)D inferiores a 20 ng/mL, de acordo com a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM){target=”_blank” rel=”dofollow”}.
Um estudo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e do Hospital de Santo António do Porto{target=”_blank” rel=”dofollow”}, publicado na revista Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, concluiu que cerca de 78% da população tem insuficiência de vitamina D, com quase 48% a apresentar deficiência grave.
Em novembro de 2025, a Rádio Renascença noticiou{target=”_blank” rel=”dofollow”} que o défice de vitamina D afeta seis em cada dez adultos em Portugal, sendo apontado como fator central na origem da osteoporose que já afeta cerca de 800 mil portugueses.
Estes números, obtidos por grupos de investigação independentes, em períodos e populações diferentes, são notavelmente consistentes: o défice de vitamina D é um problema de saúde pública em Portugal, nas palavras da médica e investigadora Cátia Duarte, autora do estudo “Prevalence of Vitamin D Deficiency in the Portuguese Population”.
7 Razões que Explicam o Défice de Vitamina D em Portugal
Razão 1: O Sol Português Não Chega Para a Maioria das Pessoas
Esta é a mais contraintuitiva de todas, mas está bem documentada.
Portugal tem sol abundante, mas a maioria da população portuguesa não está exposta a esse sol da forma correta. A exposição solar necessária para sintetizar vitamina D requer:
- Pele exposta diretamente ao sol, sem protetor solar
- Exposição no período em que os raios UVB têm ângulo suficiente, ou seja, entre as 10h e as 15h
- Superfície corporal mínima de 20% a 30% exposta (face, braços e pernas)
- Durante pelo menos 15 a 30 minutos, dependendo do tipo de pele
Na realidade, a maioria dos portugueses em idade ativa passa esse período dentro de escritórios, fábricas ou automóveis. Quando saem para a rua, usam protetor solar, que reduz a síntese de vitamina D na pele em até 95%, de acordo com a SPEDM.
Razão 2: A Genética Portuguesa é um Fator de Risco Específico
Este é um dado que muita gente desconhece e que distingue Portugal de outros países igualmente ensolarados.
Investigadores do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa, da Nova Medical School e da Faculdade de Medicina do Porto concluíram que a população portuguesa tem uma prevalência superior à média europeia de alterações genéticas que levam a uma predisposição para o défice de vitamina D, conforme noticiado pela RTP{target=”_blank” rel=”dofollow”}.
Estes polimorfismos genéticos afetam as vias de síntese, transporte e metabolização da vitamina D no organismo. Significa que, mesmo com exposição solar equivalente, um português pode produzir e reter menos vitamina D do que um cidadão de outro país europeu.
Razão 3: A Alimentação Portuguesa é Pobre em Vitamina D
As fontes alimentares de vitamina D são escassas. Os alimentos com teor mais significativo incluem peixes gordos como o salmão, o atum e a sardinha, o óleo de fígado de bacalhau, as gemas de ovo e os produtos lácteos enriquecidos.
Embora Portugal tenha uma tradição forte no consumo de peixe, a realidade é que a alimentação atual da maioria dos portugueses, especialmente nas cidades e nas faixas etárias mais jovens, afastou-se progressivamente deste padrão, aproximando-se de uma dieta mais processada e pobre nestes alimentos.
Razão 4: O Envelhecimento da População Portuguesa
Com o envelhecimento, a capacidade da pele para sintetizar vitamina D diminui significativamente. Estima-se que uma pessoa com 70 anos produza cerca de quatro vezes menos vitamina D do que uma pessoa jovem, com a mesma exposição solar.
Portugal tem uma das populações mais envelhecidas da Europa, com mais de 23% da população acima dos 65 anos. Este fator demográfico contribui diretamente para os números elevados de défice.
Os fatores preditores de níveis de vitamina D muito baixos, inferiores a 10 ng/mL, incluem a idade avançada, como confirmado pelos dados da SPEDM, ao lado de outros fatores como a obesidade, o tabagismo e residir nos Açores.
Razão 5: A Obesidade e o Excesso de Peso
A vitamina D é lipossolúvel, o que significa que é armazenada no tecido adiposo. Em pessoas com excesso de peso ou obesidade, a vitamina D fica “sequestrada” nesse tecido, tornando-se menos disponível para o resto do organismo.
Portugal tem uma prevalência de excesso de peso acima da média europeia, com mais de 55% da população adulta a apresentar IMC acima dos valores considerados saudáveis, segundo dados do INS (Inquérito Nacional de Saúde). Este é um fator que raramente é associado ao défice de vitamina D, mas que tem impacto real e documentado.
Razão 6: O Uso Generalizado de Protetor Solar
A consciência para os riscos do cancro de pele aumentou muito nas últimas décadas em Portugal, o que é positivo. Mas tem um efeito colateral direto na síntese de vitamina D.
Um protetor solar com fator de proteção 30 reduz a síntese cutânea de vitamina D em cerca de 95%, segundo dados da SPEDM. Fator 50 reduz ainda mais. A mensagem não é parar de usar protetor solar, mas reconhecer que o seu uso sistemático elimina praticamente a produção de vitamina D pela pele.
Razão 7: Medicação Comum que Interfere com a Vitamina D
Vários medicamentos de uso comum em Portugal interferem com a absorção, síntese ou metabolismo da vitamina D:
- Anticonvulsivantes, usados na epilepsia
- Antiretrovirais, usados no tratamento do VIH
- Corticosteroides, amplamente prescritos para condições inflamatórias
- Alguns antibióticos de uso prolongado
Uma população com consumo elevado de medicação crónica, como é o caso da população portuguesa envelhecida, está automaticamente em maior risco de défice.

Quais os Sintomas do Défice de Vitamina D em Portugal?
O défice de vitamina D é frequentemente silencioso, especialmente nos estágios iniciais. Os sintomas mais comuns incluem:
- Fadiga persistente que não melhora com descanso
- Dores musculares e fraqueza generalizada
- Dores ósseas, especialmente nas costas, ancas e joelhos
- Infeções respiratórias frequentes, uma vez que a vitamina D é fundamental para a imunidade
- Humor deprimido ou tristeza persistente sem causa aparente
- Dificuldade de concentração e “nevoeiro mental”
- Queda de cabelo acima do normal
- Cicatrização lenta de feridas
Em crianças, o défice grave de vitamina D pode causar raquitismo, uma doença que afeta o desenvolvimento ósseo e que, embora rara hoje em dia, ainda é reportada em Portugal em casos de défice severo não tratado.
Quem Está em Maior Risco em Portugal?
Com base nos dados portugueses disponíveis, os grupos de maior risco são:
- Idosos com mais de 65 anos, especialmente institucionalizados
- Pessoas com obesidade ou excesso de peso significativo
- Mulheres, que apresentam maior prevalência de défice do que os homens em vários estudos portugueses
- Residentes nos Açores, onde a nebulosidade e a latitude reduzem a síntese solar
- Trabalhadores em espaços interiores sem acesso a luz solar natural
- Pessoas com doenças de má absorção intestinal, como doença celíaca ou doença de Crohn
- Pessoas com pele mais escura, que necessitam de maior exposição solar para sintetizar a mesma quantidade de vitamina D
- Grávidas e mulheres a amamentar
Como Confirmar o Défice de Vitamina D em Portugal?
A única forma de confirmar o défice de vitamina D é através de análise ao sangue, pedida pelo médico assistente.
A análise solicita-se como “doseamento de 25-hidroxivitamina D” ou “25(OH)D”. É uma análise de rotina, disponível em qualquer laboratório de análises clínicas em Portugal.
Um ponto importante: esta análise não está incluída nos painéis de análises de rotina habituais do Serviço Nacional de Saúde, pelo que pode ser necessário solicitá-la especificamente ao médico. Em privado, o custo ronda os 15 a 25 euros.
Como Corrigir o Défice de Vitamina D em Portugal?
Exposição Solar Moderada e Estratégica
A primeira linha de abordagem é sempre a exposição solar. Não é necessária uma exposição prolongada, cerca de 15 a 30 minutos de sol no rosto, braços e pernas, sem protetor solar, entre as 10h e as 15h, em dias de céu aberto, são suficientes para uma pessoa saudável com pele clara em Portugal.
Fora deste horário ou com protetor solar, a síntese de vitamina D é mínima ou nula.
Alimentação Rica em Vitamina D
Aumentar o consumo de alimentos naturalmente ricos em vitamina D é sempre o segundo passo:
- Sardinha e atum em conserva, alimentos tradicionais portugueses que merecem mais presença na mesa
- Salmão, preferencialmente de mar aberto
- Gemas de ovo de galinhas criadas ao ar livre
- Cogumelos expostos à luz solar, que sintetizam vitamina D2
- Produtos lácteos enriquecidos com vitamina D
Suplementação
Quando a exposição solar e a alimentação não são suficientes, a suplementação é a alternativa mais eficaz e segura.
A forma mais recomendada é a vitamina D3 (colecalciferol), que é a forma produzida naturalmente pela pele e a de maior biodisponibilidade. Para uma visão completa sobre como escolher o melhor suplemento de vitamina D disponível em Portugal, consulte o nosso guia Melhor Vitamina D em Portugal (2026).
Para quem toma doses mais elevadas, acima de 2.000 UI por dia, considere a combinação com vitamina K2, que ajuda a direcionar o cálcio para os ossos e dentes. Saiba mais sobre esta combinação no nosso artigo sobre Vitamina D e K2.
Para saber como interpretar os rótulos dos suplementos de vitamina D e evitar produtos de baixa qualidade, leia o nosso guia sobre como ler um rótulo de suplemento.
Consequências do Défice de Vitamina D Não Tratado
O défice de vitamina D prolongado e não corrigido está associado a um conjunto de consequências documentadas:
- Osteoporose e maior risco de fraturas, especialmente na anca e na coluna. Em Portugal, para os próximos 25 anos, as projeções apontam para um aumento de 32% das fraturas relacionadas com o défice de vitamina D, segundo a Rádio Renascença.
- Maior suscetibilidade a infeções respiratórias, incluindo gripe e outras viroses
- Associação com formas mais graves de COVID-19, confirmada pelo estudo VITACOV, realizado nos Hospitais de Santa Maria e São João
- Maior risco de doenças autoimunes e inflamatórias crónicas
- Possível associação com estados depressivos e perturbações do humor, embora a relação de causalidade ainda esteja a ser investigada
Perguntas Frequentes
O défice de vitamina D em Portugal pode ser confirmado por sintomas? Não com certeza. Os sintomas são inespecíficos e podem ter muitas outras causas. A única confirmação é através de análise ao sangue.
Posso tomar vitamina D sem análises prévias? Para doses de manutenção, entre 1.000 e 2.000 UI por dia, a maioria dos adultos saudáveis tolera bem sem análises prévias. Para doses superiores, a avaliação médica é recomendada.
O deficit de vitamina D é reversível? Sim. Com a suplementação adequada, os níveis de vitamina D sobem de forma consistente em 8 a 12 semanas. A reavaliação analítica costuma ser feita 3 meses após início da suplementação.
As análises de vitamina D estão cobertas pelo SNS? Nem sempre de forma automática. O pedido deve ser feito pelo médico assistente, com indicação clínica. Em caso de dúvida, consulte o seu centro de saúde.
Conclusão
O défice de vitamina D em Portugal é um problema de saúde pública real, documentado por múltiplos estudos independentes, que afeta mais de 60% da população adulta. A ironia de ser um país com tanto sol esconde sete razões concretas que explicam porque é que o sol português não resolve o problema para a maioria das pessoas.
A boa notícia é que é um défice fácil de detetar, através de uma simples análise ao sangue, e relativamente fácil de corrigir, com exposição solar estratégica, melhoria da alimentação e suplementação quando necessário.
Se se reconheceu em alguns dos fatores de risco descritos, o próximo passo é simples: pedir ao seu médico um doseamento de 25(OH)D na próxima análise de rotina.
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Fontes e Referências
- Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM). Défice de vitamina D. Disponível em: https://www.spedm.pt/pt/glandulas-e-doencas-endocrinas/defice-de-vitamina-d
- Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), Universidade do Porto. Estudo alerta para défice de vitamina D na população portuguesa. Disponível em: https://sigarra.up.pt/icbas/en/noticias_geral.ver_noticia?p_nr=20727
- Rádio Renascença (novembro de 2025). Cerca de dois em cada três adultos têm défice de vitamina D. Disponível em: https://rr.pt/noticia/pais/2025/11/02/cerca-de-dois-em-cada-tres-adultos-tem-defice-de-vitamina-d/446049/
- RTP Notícias (maio de 2021). Genética da população portuguesa pode explicar deficiência de vitamina D. Disponível em: https://www.rtp.pt/noticias/pais/genetica-da-populacao-portuguesa-pode-explicar-deficiencia-vitamina-d_n1319674
- Newsfarma (2019). Quão frequente é a carência de vitamina D na população portuguesa? Disponível em: https://www.newsfarma.pt/artigos/8505-qu%C3%A3o-frequente-%C3%A9-a-car%C3%AAncia-de-vitamina-d-na-popula%C3%A7%C3%A3o-portuguesa.html
Última atualização: Maio 2026 | folhadeacucar.pt
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